No sábado li o texto da Paula Moura Pinheiro, na Grande Reportagem, sobre ‘a maledicência ociosa’ e confesso que me senti intelectualmente espicaçado. Será que, como país, nos alimentamos sobretudo do azedume, da descrença, das imagens de garrafas ‘meio-vazias’ e será que o jornalismo nacional, em particular, padece de enfermidade afim, ou seja, porque funciona com base na ideia “ingénua” de que as coisas deviam correr sempre bem, busca apenas o que está mal, “de preferência francamente mal”. No dia seguinte li o excelente trabalho da Andreia Sanchez e do António Marujo no Público sobre a pobreza em Portugal - um em cada cinco de nós é pobre e 200 mil pessoas passam fome - e não consegui deixar de pensar nas duas coisas em conjunto. Hoje, também no Público, Joaquim Fidalgo toca nesta minha inquietação de fim de semana.
Tenho que admitir que, a momentos, sinto alguma afinidade com o ponto de partida que a Paula Moura Pinheiro usa para lançamento da sua prosa. Sendo uma espécie de derivação para leigos do complexo de hiperidentidade nacional de que fala insistentemente o Eduardo Lourenço, a ideia (desculpem-me os efeitos da redução) baseia-se num argumento: os portugueses sentem de forma tão pesada o seu passado de glória que, no presente, tendem a ver-se sempre como inferiores, a menos que alcancem algo de verdadeiramente inesperado - por exemplo, a Expo, o Euro, as vitórias no futebol ou até mesmo a possibilidade de participar numa cimeira que marca o início de uma guerra. Todos viveremos sob o manto pesado deste sentimento de inferioridade/culpa e todos sentiremos uma admiração desmesurada por aqueles - esses sim - que conseguem alcançar algo de extraordinário. As nossas vidinhas são, entretanto, vividas na tranquila mediocridade, uma vez que é essa a nossa sina e não temos nem as pernas do Carlos Lopes nem as condições de vida de outros europeus.
Não consigo dizer que tudo isto é um devaneio teórico. Pelo contrário, parece-me um retrato fiel do que estaria subjacente ao ideário do Estado Novo e que - porque estas coisas não acabam com as mudanças de poder político - cá vai existindo, como menos vigor, mas ainda bem presente.
Aqui, no entanto, termina a minha partilha com a Paula Moura Pinheiro. O salto que ela dá a seguir - o de que isto só lá vai se falarmos do ‘bom’, do que corre bem - parece-me, precisamente, o mais desadequado.
A tranquila mediocridade - a tal à qual não conseguimos escapar - vai continuar a ter atenuantes enquanto, ao nível das mentalidades, não se deitar fora de vez este paradigma do ‘coitadinho’ (seja eu seja o meu país) e o subsequente esforço para ‘fazer peito’ a cada nova oportunidade que surge.
Não me parece que uma tão radical mudança aconteça apenas porque, na nossa vida pessoal, ou na vida comum (também através dos media) optemos por salientar ‘os bons exemplos’. Parece-me mais plausível que uma lenta transformação ocorra na sequência, precisamente, da exposição pública de mais e maiores incongruências, de mais e maiores indicadores de ineficácia ou até corrupção. A aposta é a seguinte - os mais novos vão crescer mais conscientes, mais atentos, mais exigentes. Aliás, isso nota-se já (felizmente) no comportamento da maioria dos jovens relativamente ao ambiente ou às questões de âmbito social.
O trabalho da Andreia Sanchez e do António Marujo é um excelente exemplo do que digo. Seria mais eficaz, para todos nós como sociedade, que estes dois jornalistas andassem em busca de histórias de assistentes sociais dedicado(a)s, de médico(a)s ou enfermeiro(a)s exemplares. Sendo estes também temas tratados pelo jornalismo parece-me muito mais importante sabermos todos pelos jornais o que não conseguimos saber pelas autoridades que nos governam (e que estão ainda a preparar o tão nacional ‘estudo’!). É chocante saber que 2 milhões de portugueses vivem mal e é chocante equacionar este dado com algumas das opções políticas dos vários governos, sobretudo desde a década de 80. É igualmente chocante perceber como esta revelação parece ter surpreendido o próprio governo do momento.
O jornalismo não pode passar ao lado destes temas, por muito que as profissionais equipas (cada vez maiores) de auxiliares de políticos assim o queiram. Parece-me - sem prejuízo do equilíbrio e do respeito pelas normas legais e éticas - que se há, por estes tempos, motivação existencial para o jornalismo, ela não deverá andar longe da preocupação social. O mais longe possível dos poderes - de todos eles - o jornalismo deveria funcionar como espaço de debate público alternativo, uma espécie de espelho/catalisador da actividade política e da nossa vivência em sociedade.
Faço minhas, aqui, as palavras do Joaquim Fidalgo: “Há muito quem ache que os jornais deviam dar mais boas, e menos más, notícias. Quem dera. Também há quem ache que o mundo devia ter muito mais boas do que más notícias para serem dadas. Quem dera…”.
Postura social do Jornalismo
'24/03/04 11:02 am' por Luis Santos
3 Respostas para “Postura social do Jornalismo”










Foi um bom artigo da Paula Moura Pinheiro. Há muita coisa a ocorrer no mundo e nem tudo é mau, mas as notícias levadas a público são sobretudo as más. Não é a falar maioritariamente do menos bom que melhoraremos social e indiidualmente assim como não é respondendo à violencia com guerra que a mesma é superada.
Aceito a opinião e agradeço que se tenha pronunciado.
Continuo, no entanto, a não encontrar razões para mudar a minha argumentação.
Não acho que se deva ligar este tema à guerra ou à violência. Nesse particular estamos de absoluto acordo. A violência não se justifica. Ponto final.
Uma postura socialmente empenhada, crítica, honesta, responsável, dos media, pelo contrário, parece-me, simultaneamente, condição essencial e reflexo de uma sociedade activa, exigente, inconformada.
Vivemos muitas décadas a filtrar notícias para que as pessoas não se preocupassem com as ‘coisas más’. E o que daí resultou ainda hoje se sente. O que era mau ficou pior e os pequenos vícios ganharam força de modo de funcionar estrutural. Muitos cidadãos, porque cresceram e viveram tanto tempo afastados do Estado não lhe dedicam hoje qualquer fidelidade - fogem aos impostos, desrespeitam regras de vida em comum, trabalham o mínimo possível sem qualquer empenho ou ‘brio’ no que fazem.
O caminho deve, agora, ser outro.
O problema esta nas prioridades, os governos aplicam muito dinheiro em coisas supérfluas ou em más opções, logo os resultados são negativos, e claro que as noticias por isso também são negativas, Portugal é o reflexo do que se faz em Portugal, outro problema é o tipo de noticia “positiva” que se dá, a grande maioria de noticias ditas positivas são fachada para promover “ALGO”, porque lhes pagaram bem, ou porque faz subir as audiências ou se vende o peixe, infelizmente é essa a imagem que deixa transparecer, Eu acho que o problema em Portugal é a falta de uma “mentalidade cientifica”, porque ainda existe uma mentalidade da idade media.