Prós e Contras
'30/03/04 2:10 am' por Luis Santos
O programa “Prós e Contras” desta noite, na RTP, valeu sobretudo pelo que nos ‘disse’ sobre a permanência de alguns traços de identidade naquela empresa e, também, pela demonstração cabal de como se pode perder tanto espaço com tão pouco.
Notas de reflexão
O formato
O programa chama-se “Prós e Contras” e, desta vez, teve direito a três partes distintas, sem que isso nos tivesse aproximado da forma mais remota de qualquer debate sério entre posições divergentes.
Na primeira (aquela que mais perto estava do prime time) optou-se por uma entrevista ao presidente do CA da RTP. Na segunda, fez-se um debate com quatro polÃticos. Na terceira, três jornalistas, um ex-jornalista e alguns elementos do público foram chamados a intervir.
Falo, mais adiante, das variadas prestaçõees de alguns dos intervenientes, mas será de toda a justiça referir que este tipo de formato e, fundamentalmente, a ausência de qualquer ponto de partida /ideia referência a discutir atrofiou todas as (poucas) tentativas feitas de inÃcio de conversa com propósito.
A entrevista ao patrão
Conhecida pela sua perspicácia e estilo incisivo, Fátma Campos Ferreira cedo nos deu mostras do seu esforço de distanciamento relativamente ao entrevistado. O “agora que aqui chegámos” é apenas um exemplo, mas hei-de lembrar com carinho especial o remate - “esperemos que a semente germine” - digno de ombrear sem medo com alguns dos melhores fechos de trabalhos do género.
Precisamente porque se reconhece o esforço de equilÃbrio financeiro, de recuperação da auto-estima interna e de reforço da imagem externa da empresa à equipa de Almerindo Marques, torna-se ainda mais inexplicável uma adaptação tão forçada da sua presença a um espaço destes. A RTP parece, apesar de tanta mudança, continuar a carregar consigo indicadores perenes de uma vida marcada pela dependência do livre arbÃtrio de polÃticos e/ou administrações nomeadas por polÃticos. A cultura profissional da casa cristalizou noções de volatilidade da posição (fazem já parte do imaginário irónico nacional as referência à s suas inúmeras prateleiras) e de total descontinuidade entre o mérito e a capacidade profissionais e a progressão na carreira. Será, assim, fácil perceber que tão original ideia não precisou sequer de ter saÃdo da mente de um elemento da administração.
O vazio
A conversa com os polÃticos - segundo Fátima Campos Ferreira, “uma avaliação da influência dos média na sociedade” - decorreu em tom ameno, entre representantes do actual Governo e do Partido Socialista. Também desta parte guardarei na memória um momento exemplar do nÃvel da discussão; o jovem centrista Pedro Mota Soares, depois de admitir não saber muito bem o que será isso do Serviço Público, rematou convicto: “o certo é que a RTP está a fazê-lo sem ir ao bolso dos portugueses”.
No espaço final - ainda segundo Fátima, “um debate sociológico sobre o papel dos média na sociedade” - o desacerto foi ainda mais notório, sobretudo porque se decidiu dar igual relevância a um ponto que poderia (esse sim) originar uma conversa interessante - a ideia reiterada por Eduardo Cintra Torres e Miguel Gaspar de que é imperioso um esforço de educação para os media - e a experiência pessoal de uma senhora que se diz viciada em televisão (a este propósito, assinalei o facto de que o director do jornal que lidera um dos projectos mais interessantes na área, José Manuel Fernandes, do Público, não quis - ou não soube?- sequer falar sobre o assunto). De igual modo, foi retirada a palavra a um professor do Ensino Secundário que nos falava da interessante ligação dos seus alunos de 13 anos a uma nova vivência comum através dos weblogs para se dar igual tempo de antena a um membro da Associação Portuguesa de Gaitas de Foles, que nos falou do seu interessantÃssimo projecto editorial…sobre gaitas (na generalidade, como gostou de precisar).
Uma Resposta para “Prós e Contras”









Em Portugal, os responsáveis pelas grelhas de programação pensam que o público não se interessa por programas vocacionados para a reflexão e análise do trabalho dos profissionais da televisão. Também se julga desnecessária a existência da figura de um Provedor. Quando na 2ª feira vi anunciado o tema da relação da TV com a sociedade para os “Prós e Contras”, pensei que isso correspondia aos tais ventos de mudança que parecem pairar sobre RTP. Fiquei sentada à espera do programa. E fiquei desiludida. Do debate com os políticos, apenas Manuela Melo sabia do que estava a falar. Quanto ao debate sociológico- apesar de, no painel, estarem pessoas a quem reconheço toda a competência - não seria aquela a conjugação indicada, nem aquele o tempo aconselhável para abordar a sociologia da televisão, que, por acaso, não é muito discutida entre nós, mas que lá por fora é alvo de uma atenção particular por parte dos investigadores e dos profissionais da televisão.