O “Clube de Jornalistas” de ontem, centrado na questão do jornalismo nas rádios locais, foi um programa suficientemente esclarecedor, mesmo para quem andasse mais distraído.
Foi possível perceber que algumas rádios locais - como a Rádio No Ar, de Viseu (que nos deu a todos,ainda recentemente, o privilégio de ouvir o “corram-nos à pedrada” de Fernando Ruas) - fazem um esforço enorme para que o seu jornalismo sobreviva à margem dos poderes económico e político mas que um número significativo de outras estações vivem num estado de ‘jornalismo de serviços mínimos’.
Sendo que a questão deve preocupar os jornalistas (as suas estruturas sindicais e a estrutura que gere a atribuição de títulos profissionais) e os legisladores, ela parece não preocupar nada o responsável máximo pela Associação Portuguesa de Radiodifusão, José Faustino.
O Sr. Faustino diz que o jornalista de uma rádio local devia ser “um técnico-profissional”, não havendo qualquer necessidade de ter formação universitária e/ou formação específica. Por razões da ordem da “flexibilidade” esse técnico estaria mais apto a exercer um leque mais variado de funções na rádio (imagino eu: entrevista, negoceia o patrocínio, preenche os respectivos contratos, edita e põe no ar o trabalho).
Ora sim senhor, José Faustino.
Poderá, assim, haver Jornalistas e jornalistas…uns com mais obrigações e outros, por causa da tal da ‘flexibilidade’, com menos.
Uns podem ser formados em Comunicação e ou outros até podem saber ler e escrever, desde que isso não interfira com a sua ‘flexibilidade’.
A ele, ao José Faustino - cuja permanência no cargo é sintomática dos graves problemas que as rádios locais precisam de resolver com urgência - e a todos os outros recomendo, a propósito, a leitura de uma entrevista do Voz del Sur a um decano do jornalismo chileno, Emilio Filippi, que já foi embaixador em Portugal e que já recebeu o Prémio Rei de Espanha (1983) pela sua defesa da liberdade de expressão.
Diz ele que a profissão não perderá a sua valia a menos que “nos dejemos estar y aceptemos, sin pudor, que el periodismo con valores y principios ha entrado en coma”.










Infelizmente, para os jornalistas, para o jornalismo e para os públicos, Portugal está sobrelotado de Faustinos. Os recém-licenciados vão parar nas mãos destes faustinos todos e não há quem lhes valha!
Destes e de outros piores que abusam dos conceitos da “flexibilidade” e dos inquantificáveis “vazios legais” para se governarem.
Da maneira que está o mercado de trabalho, o mais certo é que seja a comunicação social local e regional a absorver a mão de obra qualificada. Mas, a que preço?
É assim que o poder instituído gosta de ver as coisas, dá imenso jeito “dispor” de uma classe fragilizada na sua dignidade profissional e retributiva, equiparada a qualquer operário indiferenciado e inqualificado.
E não é só no jornalismo. Não, não!
Recentemente, colocaram um anúncio de emprego no placard do curso de Comunicação Social da UM, com uma vaga para Assessor de Imprensa, por 6 meses, na universidade do Porto. O vencimento oferecido é nada mais, nada menos, do que o salário mínimo, embora se exija a licenciatura…
Não admira, portanto, que o Sr. Faustino fale assim (aliás, ele deve ser dos que pensa que o salário mínimo até é excessivo!).
Se as próprias universidades são as primeiras a desconsiderar a valia dos alunos que licenciam (é escandaloso que uma instituição ofereça uma vaga para Assessor de Imprensa a troco de um salário mínimo! e é ainda mais escandaloso que outra universidade considere que esse é o valor justo pelo trabalho que os seus recém-licenciados podem desempenhar), é óbvio que se abrem as portas à mediocridade. Em todas as frentes.
E assim em nada contribuímos para melhorar a produtividade, a competitividade, a qualidade, a inovação, o empreendedorismo e todos os palavrões que andam por aí a impingir-nos todos os dias.
A instabilidade, a indignidade salarial, são meio caminho andado para a fragilização dos princípios dos profissionais da comunicação (em todas as áreas).
Os estágios não remunerados é outra escandaleira inqualificável! Mas não se vê ninguém insurgir-se contra isto. Não percebo! Trabalhar de borla…?! ….Francamente!
Ninguém no seu perfeito juízo se pode sujeitar a 5 anos de uma licenciatura para, no fim, ficar satisfeito porque arranjou um “emprego” e até teve “sorte” porque recebe o salário mínimo nacional… Ainda se fosse o salário mínimo luxemburguês (sim, que, mesmo assim, é superior ao vencimento médio numa redacção)!Por este caminhar vamos todos fazer limpezas! Pelo menos, com a garantia de que ganhamos muito mais!
Emilio Filipi toca na ferida. O coma é profundo. Está tudo despudoradamente ligado às máquinas!