Há dias passei os olhos por um texto que Tim Porter escreveu na primeira edição de 2006 dos Nieman Reports e não pude deixar de pensar na agitação que a imprensa nacional viveu nas últimas semanas com enfoque particular nas edições de sábado.
O aparecimento do SOL terá acelerado a remodelação do Expresso (despoletou em força o instinto de sobrevivência comercial dos seus gestores que não hesitaram em ser os primeiros – em Portugal, naturalmente – a oferecer DVD’s grátis…ou será que são de borla?) e forçou também mexidas no Público. O DN não saiu do sítio…mas isso poderá, infelizmente, ter mais a ver com o ’sítio’ em que se encontra do que com a vontade de quem o dirige.
Mas vamos então ao que interessa…tanta mudança resultou em produtos jornalísticos de melhor qualidade no – pelos vistos – determinante dia de sábado?
Será mesmo?

O Expresso tem um formato muito mais agradável e adoptou um estilo de paginação muito semelhante ao do premiadíssimo Guardian (até no cabeçalho da Primeira). Não tem que enganar.
Parece-me – sobretudo na edição de hoje – que há maior cuidado com a fotografia e – isso já havia notado na da semana passada – há uma saudável recurso mais frequente à infografia.
O que falha?
Sobretudo a densidade. Há muito menos texto para ler num primeiro caderno com míseras 32 páginas. Sendo que, na maior parte dos casos, estamos a falar de meias páginas. E aqui aproveito para falar de outro ponto que me parece visualmente frágil; neste formato, as páginas de publicidade deveriam ser tendencialmente inteiras…a contento de anunciantes e de leitores, parece-me.
No Sol a primeira coisa que notei foi a enorme confusão de estilos e corpos de letra num formato tão pequeno (o tablóide). A sensação com que fiquei foi de estar a olhar para um concentrado do pior que tinha para nos dar a paginação do Expresso nos tempos do Sr. Arquitecto. A planos mais contidos (páginas 12-13) sucedem-se espaços que parecem respeitar apenas a regra do ’será que cabe?’ (página 19). A ideia da cor, para definir as áreas do jornal não me pareceu desagradável, só não seria preciso abusar tanto dela.
O bom?
Os cartoons do Cid, a aposta em temas como ‘Aprender em casa’, ‘Jornalista de 13 anos’, ‘O padrinho do Sal’ e ‘Conversas na prisão’.
O mau?
Não ter uma grande notícia no seu número de lançamento (os negócios do Isaltino são uma ‘emenda’ provinciana que mancha a primeira edição).
Abrir com uma entrevista à Maria Filomena Mónica.
A total desadequação do texto ‘Como nasceu o Sol’ aos princípios defendidos no estatuto editorial.
A separação dos jornalistas, na ficha técnica, entre aqueles que são ‘Redacção’ e os que são ‘Iniciados’ (uma originalidade absolutamente bacoca).
O Público achou por bem dar-nos mais tempo para ler o ‘Inimigo Público’ (gesto que se agradece – a edição da semana passada, sobre o aumento da concorrência no sector das publicações com notícias falsas é uma pérola) e o DN ficou, como se disse, a assistir a tanta bolanda.
Ainda assim, o Tim Porter continua a fazer-me sinal com a sua frase:
If newspapers were a restaurant, their motto might be: “C’mon in. The Food ain’t Great but you Get Plenty of It.
E é isso mesmo que penso depois de perder umas horas de volta de tanto papel.
O Sol é, apesar da aparência garrida, um produto conservador e não traz nada de fundamentalmente novo ao jornalismo nacional (a excepção poderá vir da sua presença online; a ver vamos).
Mas, dito isto, pode mesmo tornar-se numa história de sucesso.
E o jornalismo até pode ter muito pouco a ver com isso.











