O mais recente post do influente Jeff Jarvis merece – como já foi notado (aqui e aqui) – leitura atenta.
Embora o seu argumento de base seja o mesmo de sempre, há neste texto uma sumarização de algumas ideias anteriormente expressas em momentos dispersos.
O que diz Jarvis?
Viviamos num mundo em que os media eram o nosso filtro único de acesso à informação; a circulação era linear e com um só sentido.
Vivemos hoje num mundo completamente diferente; acabou a linearidade e, definitivamente, acabou o fluxo de sentido único. Informo-me por várias vias com as quais estabeleço interacções e a imprensa, ou os media de forma mais abrangente, são apenas algumas delas.
When we put the public at the center of the universe — which is how these charts should be drawn and how the world should be seen, as each of us sees it — we see the choices we all call upon: the press still, yes, but also our peers, media that are not the press (e.g., Jon Stewart), search, links, original sources, companies, the government. It’s all information and we curate it and interact with it with the tools available. And, again, the press stands in a different relationship to the world around it.
Isto tem, forçosamente, efeitos na forma como o jornalismo se entende e também na forma como o próprio trabalho jornalístico se desenvolve; diz Jarvis que “agora uma história nunca começa e nunca acaba” – um jornalista pode aceder a ela num determinado ponto e acrescentar-lhe valor, mas ela continuará a sua existência muito para além desse contributo – e que as redacções precisam, portanto, de se organizar em torno das histórias e não de secções herdadas de outros tempos.
Ora bem.
Jeff Jarvis constitui sempre leitura desafiadora e essencial.
Mas há em muito do que escreve a edificação de um argumentário com base em premissas lapidadas de uma forma muito especial.
1. Higiene
Se pensarmos nos dois esquemas propostos para ‘o mundo de informação a que tenho acesso’ – acaso não existiria outrora a relação com os pares, com o governo, com o espaço (físico, interl-pessoal e simbólico) do trabalho, com teatros e exposições, com filmes, publicações não periódicas? Existia pois, e a complexidade também não era estranha nem tão-pouco a fluidez. Seriam, aceita-se, tanto uma como outra menos visíveis, mas apenas isso. Jeff Jarvis higieniza para conseguir maior contraste – é um exercício de estilo que subestima o rigor.
2. Utopia
Há uma presunção vital – a do primado do potencial da tecnologia – que esconde considerações sobre o efectivo uso social das mesmas. O ‘potencial’ é mesmo encarado como realidade, em vez da própria realidade. Como as coisas existem, obviamente as pessoas vão passar a agir assim; como tenho ao meu dispor acesso mais facilitado a fontes, media, conteúdos gratuitos e ferramentas de auto-edição, vou mudar a minha forma de agir – vou seleccionar todos os dias toda a informação e vou confrontá-la com opiniões divergentes, vou ler os estudos ou relatórios em que se apoia e vou, finalmente, comentá-la com valor acrescentado.
Vou, não vou?
Eu e o resto do planeta, certo?
3. Fervor
Jarvis consegue escrever de forma elegante e bastante atraente sobre o que está profundamente errado e sobre a mudança necessária sem que para isso tenha que produzir qualquer tipo de prova. O tecno-determinismo ajuda, mas o fervor do discurso representa um contributo assinalável. Lemos e ficamos como que assoberbados – é uma onda gigante de persuasão que nos ataca.
Mas precisamos sempre de ter presente o que acontece às ondas – chegam com estrondo e partem sereninhas.












[…] sobre tese tão singela e, ao mesmo tempo, tão certeira. Por sorte, já houve quem tenha tentado decupá-la. E de forma tão crítica e lógica que também vale a pena […]